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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

EU E O THONY SILAS.


As vezes ainda sou cobrado para postar alguma foto minha neste blog. Bem, uma por ano acho que tá legal. Depois de um tempo eu tiro. Esta foi durante um encontro de desenhistas no Paço Alfândega, em Recife, no finzinho de novembro (2014), ao lado do Thony Silas, um grande artista que atualmente faz Batman do Futuro pra DC Comics.


Bom fim de semana a todos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NUMA E A NINFA ( CENA 10 ).



Podem respirar aliviados que hoje não vou escrever muito. Até queria mas não será possível.
Deixo aqui a cena 10 do clássico do grande Lima Barreto (imagem de cima) e outra cena que ia ficar de fora mas resolvi agregar (abaixo), do mesmo livro.
Espero que gostem.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ANTES TARDE QUE NUNCA.

Amadas e amados, boa noite.

Hoje meu irmão caçula completa mais uma primavera. Já falei com ele mas deixo aqui registrado meu amor incondicional. Feliz aniversário, Rodrigão!

Depois de ficar quase dois dias longe da internet e da prancheta, só agora a noite (são exatamente 22:15 hs) sento diante do computador. Dei uma rápida olhada nos meus e-mails, nada de relevante senão aqueles anúncios de vendas e um recado de uma turma que tinha um projeto no Cartarse (um que colaborei) informando que enviarão o livro só a partir de fevereiro. Cara, eu nem me lembrava mais disso!
Olhei também o Facebook, alguém me disse que se um artista quiser ser conhecido pelo maior público possível deve fazer a sua parte se exibindo nas redes sociais. Bem, no Facebook também não havia nada demais, nenhum editor com grana pra gastar querendo investir em meus projetos pra me tirar da maré ruim que me agarrou a uns meses e não quer soltar de jeito nenhum. Só pra vocês terem uma ideia, entreguei as ilustrações do último livro que fiz a mais de um mês e um pagamento que estava previsto para vinte dias atrás ainda não entrou! É a coisa mais chata ligar para o setor financeiro da empresa e ouvir desculpas esfarrapadas. Os juros das minhas contas atrasadas não querem saber. Acho que vocês também não, então mudo de assunto.

Fiquei sem trabalhar esse tempo porque ontem pela manhã aconteceu uma pequena tragédia dentro do meu estúdio. Preciso de mais umas duas estantes de ferro para poder colocar uns livros e quadrinhos que estão trancafiados em caixas desde que vim morar neste local quente. De lá pra cá, é claro, meu acervo só fez crescer. Fui empilhando livros e gibis, além de folhas de papel com anotações e esboços. A montanha foi se erigindo e eu pensava, tenho que dar uma arrumada nisso, uma hora essa porra cai na minha cabeça. Já uns dias vinha notando que a pilha estava meio enviesada, cuidadosamente dei uma "arrumada" prometendo a mim mesmo distribuir melhor aquilo assim que sobrasse um tempo. E o maldito tempo nunca sobrava, tem sempre algo mais urgente, como comer, dormir e escovar os dentes, por exemplo. Tenho que ressaltar que boa parte da minha bagunça se faz necessária pois são livros que de alguma maneira estou sempre consultando. Bem, logo cedo, liguei meu notebook em cima da prancheta pra começar a minha rotina de trabalho, atualmente, além do Poe, ilustro Noites na Taverna, do Álvares de Azevedo. A Verônica me chamou lá na cozinha pra alguma coisa, enquanto falávamos ouvi um som de coisas caindo, algo como som de metal estatelando no chão. Corri para ver o que era e os livros e papeis estavam todos espalhados por sobre minha mesa, cadeira e chão. Na queda, os livros acertaram meu laptop jogando-o no assoalho. A primeira coisa que pensei foi: me fudi! Como vou trabalhar agora? Ao notar minha exasperação a Vera falou: calma rapaz, damos um jeito. Pegou o aparelho do chão e notamos que a despeito da queda e dos livros que se amontoaram sobre ele, estava intacto, funcionando perfeitamente! E olha que tem idiota que não acredita em Deus!
Bem, o tal tempo que nunca sobrava acabou se estendendo pela matina, post meridien et vesperam. Como ainda não tenho condições de comprar as tais estantes de ferro, remanejei as caixas de maneira a torna-las mais seguras. Fiz uma reforma quase total em meu ambiente de trabalho, separando papeis que vão se aglutinando aqui e acolá, são esboços e mais esboços, notas e artes finalizadas, tanto de materiais já publicados, projetos em andamento e outros ainda no limbo. As vezes não sabia onde colocar ou mesmo o que fazer com aquilo. Uma onda de pensamentos tomaram conta da minha cabeça e na verdade não são pensamentos novos, venho meditando sobre isso já a algum tempo. Pra que acumulo tanta coisa? Vou reler todos esses gibis? São mesmo úteis ainda hoje?
Tempos atrás, o Leandro Luigi Del Manto, editor da Devir, colocou diversos quadrinhos à venda no Facebook. Pensei: puxa, que pena, o Leandro está se desfazendo de suas hqs! Na verdade ele só estava se livrando dos excessos, buscando espaço em seus armários. Acho o desapego uma coisa importante, algo que ainda não desenvolvi inteiramente, penso que tudo que conquistei foi tão árduo que me agarro aos troféus como para me lembrar que lutei muito por eles.
E pra que guardo tantos rabiscos? Porque faço tantos desenhos que, na real, nem mostro a ninguém? Talvez, lá no fundo queremos nos imortalizar, deixar algo para futuras gerações. Hoje muitos querem saber mais sobre o poeta Cruz e Souza, o Dante Negro, que ao ser vencido pela tuberculose foi transladado de Curral Novo ao Rio de Janeiro num vagão destinado ao transporte de cavalos. Tivesse ele deixado notas, rascunhos, pensamentos que só diziam respeito a ele, teríamos uma maior dimensão de seu talento - talvez tivesse deixado e não tenha sobrevivido ao tempo, vai saber - o fato é que tudo, no fim das contas, não faz muito sentido.
Quantos ainda me lêem aqui? Digo, os textos mais longos? Ao me iniciar neste blog eu tinha quase 500 visualizações diárias, caiu para 250 a 300 depois de um tempo e hoje vai de 50 a 150. No Facebook as solicitações de amizade vão se somando day by day, mas quantos ali sabem mesmo o que faço? Quantos já leram um quadrinho do Zé Gatão ou já ouviram falar do personagem? Muito poucos pelo que pude notar. Os novos artistas então, nem se fale, esses só estão centrados em suas produções.

Bem, o Livro de Eclesiastes fala disso tudo de maneira irrefutável.

Diminuí muito minha compra de quadrinhos, livros, filmes e cds, mas sei que ainda vou adquirir aqueles que me interessam, dos autores dos quais sou fã, mas a tendência é me ausentar mais e mais disso tudo, tanto que por mais convites que surjam para parcerias em projetos como o Golem, por exemplo, eu não sinta o mesmo entusiasmo de outrora.

Meu espaço agora ficou diferente, mais arejado (pode ser só impressão) e amanhã bem cedo retomo as atividades, se o Senhor permitir. A luta não pode parar.
Estou sem corretor de texto, então perdoem algum erro. Fiquem com mais um desenho para um livro infantil.
Bom fim de semana a todos.



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

NUMA E A NINFA, CCXP E A NOVA (JÁ ENVELHECENDO) GERAÇÃO.

Pois é, como tudo que é bom dura pouco, acabou ontem a Comic Con Experience. Imagino que tenha sido bem legal. Na verdade, acho que eu teria gostado de ir, não para gastar dinheiro com o que estava sendo comercializado lá, acho muito fera aquelas estatuetas, mas é um luxo que não posso me dar e nem tenho fissura pela coisa. Quadrinhos? Bem, salvo o material independente que os novos autores tem publicado, pouco me interesso pelas novidades. Adquirir originais de artistas? Não me apetece. Olhar de perto astros de série de tv? Tô fora. Ver utensílios usados em filmes que marcaram época? Sim , isto poderia ser maneiro, encaro como olhar objetos em um museu, e eu gosto de museus. Assistir filmes e trailers em primeira mão? Acho que não vale horas numa fila para isso, não é mais pra mim. Palestra? Ah, na real, não tenho mais saco! É bem sabido que os bacanas que vão aos eventos de cultura pop tão lá para vender seus peixes, são inúmeros livros, filmes, séries de tv, games, toys, graphic novels e tutti quanti. Tá muito certo, é um negócio, tem oferta e procura, eu vendo um produto, você compra. Se fica satisfeito volta para comprar mais. Assim funciona o mundo onde se progride, gera renda, emprego e se tem liberdade de escolha.

Porque eu teria gostado de ir? Não sei bem, gosto de bienais e também creio que aquela movimentação toda seria uma boa forma de observar in loco o mundo atual. Nerds de todas as formas, sexos e tamanhos, vestidos como seus personagens preferidos ou não indo adorar seus deuses levando suas oferendas. Na verdade não é um privilégio do tempo presente, sempre foi assim, mas a turma de hoje tem algo de peculiar.

Teria sido muito bacana estar ali com meus três irmãos, vislumbrar tudo e todos, tecer nossos comentários ácidos e depois ir na praça de alimentação encher a pança. Mas esta é mais uma crise de nostalgia, afinal, não somos mais os mesmos, não estamos mais solteiros sem as responsabilidades de chefes de família. Estamos sempre unidos em espírito mas afastados de corpo a muitos anos, infelizmente.

Este fim de semana, enquanto trabalhava, algumas vezes, em vez de ouvir música, deixei rolar ao vivo a CCXP no canal do site Omelete (na verdade o responsável por trazer este festival para o país) e acompanhei algumas matérias e entrevistas e pude notar algo interessante que até então não tinha me tocado de forma clara: a nova geração internet. Bem, nova em termos pois a coisa já vem de algum tempo, mas sentaram na poltrona do Omelete um sem número de pessoas que eu nunca tinha ouvido falar, mas que são bem famosas em canais do You Tube e sei lá mais o quê. Ali parece que se tornam caciques destas novas tribos. Noto também que estes "famosos" ainda precisam do aval das emissoras de tv para "acontecerem" de fato. Digo isto porque reparei que alguns programas dominicais exibem vídeos muito assistidos na rede e os mais "interessantes" dão suas caras na tela da televisão aberta, e muitos são transformandos em novas estrelas, todas bem fugazes, mas ainda assim, estrelas.
Voltando ao novojovemnerd, todos tem uma forma semelhante de se expressar, são irônicos, sexualizados e muito desbocados, bem informados no que se refere ao mundo que os circunvizinham, a maioria versado em games, séries e livros onde os protagonistas são jovens que transformam seu mundo, como Harry Potter (que até já envelheceu na memória deles, imagino) e a menina do Jogos Vorazes. O que temos mais? Percy Jackson, Maze Runner e por aí vai.
Esta safra de heróis novatos com seus abdominais definidos diferem muito daqueles durões de meia idade como John Wayne, Charles Bronson, Clint Eastwood ou mesmo Schwarzenegger. Estes eram tipos solitários lutando por sua sobrevivência ou tentando proteger suas famílias, os de hoje combatem liderando grupos em nome de ideologias.
No meio disso tudo me sinto como um animal extinto.

A CCXP também confirmou algo que eu já supunha, as HQs emprestaram seu nome (Comic) para um festival, mas pouca coisa é falada a respeito delas. Com certeza o Pipoca e Naquim vai focar no tema, pois os caras são apaixonados por gibis e falam como fãs, mas a maior parte trata da coisa como negócio, se rende, a gente fala um pouco, senão esqueça. Os palestrantes da arte sequencial foram os mesmos de sempre. Normal. Os caras chamam público.
Um amigo meu achou que os preços extorsivos para a entrada foram uma forma de espantar o populacho. Não sei, pode ser, mas um evento assim custa caro, eles tem que obter retorno. Os patrocinadores se não me engano foram canais pagos de televisão e empresas privadas, não teve dedo do governo, então....

Alguém poderia perguntar, "se você tivesse sido convidado para o evento esse texto teria esse tom mordaz?" Bem, se tivesse sido convidado, lá, eu atuaria como um profissional e eu procuro fazer bem o meu trabalho, mas tento ser imparcial em minhas elocubrações sobre a vida.

Bom, o certo é que foi coroado de sucesso e já anunciaram um novo para o final de 2015. Vai ter também a bienal de quadrinhos de BH e com certeza outras vitrines. Quantos de nós estarão presentes para ver?

A arte de hoje é mais uma cena de Numa e a Ninfa.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

HOMENAGEM AO SÍLVIO SANTOS.


E o famoso homem do sorriso completa agora no dia 12 de dezembro, 84 anos! Pô, e como ele está bem! (ele e o Maurício de Souza, que tem 79!).
Tivesse eu mais tempo ficaria aqui falando um pouco sobre como o Sílvio fez parte de nossas vidas, como minha mãe o conhececeu muitos anos atrás quando ele sorteava uma máquina de costura em cima de um caminhão, como minha avó materna tinha verdadeira fascinação por ele e como eu e meus irmãos nos divertíamos nas manhãs de domingo no SBT assistindo Tarzan (aquela série com o Ron Ely) e a luta livre americana com o Hulk Hogan.
Mas vou me ater somente à exposição que inaugura no dia 10 de dezembro no Metrô República em São Paulo em homenagem a ele. Participo com esta caricatura que aqui está:


A ideia de faze-lo como um gênio que realiza sonhos foi do meu irmão, que para mim é o verdadeiro gênio, a visão artística do Gil sempre foi muito à frente do nosso tempo - ah! se tivéssemos conseguido emplacar aquela série de terror para a televisão que criamos juntos nos anos 90! Mas deixemos o passado e concentremo-nos no agora. E o agora me chama com urgência à prancheta para cuidar do trabalho.

Tenham todos um ótimo fim de semana (quem for à CCXP, divirtam-se por mim, certamente será um weekend diferenciado).

Abaixo, o release da expo.


SILVIO SANTOS É HOMENAGEADO EM SEU ANIVERSÁRIO COM EXPOSIÇÃO DE CARICATURAS

O ícone da TV brasileira completa 84 anos no próximo dia 12 de dezembro

84 VEZES SILVIO SANTOS – 10 A 31 DE DEZEMBRO NO METRÕ REPÚBLICA (nível “C”)


Senor Abravanel, conhecido por todos como Silvio Santos, é uma referência na vida dos brasileiros.  Acostumados a recebê-lo em suas casas aos domingos, como se fosse da família, muitos nem sabem que ele completará 84 anos de vida no dia 12 de dezembro de 2014.

Os cartunistas brasileiros sempre o recriaram em seus traços nas caricaturas e charges publicadas na mídia. Assim, a Associação dos Cartunistas do Brasil reuniu 60 dessas caricaturas para uma exposição há tempos merecida pelo apresentador, que invade nossos lares com todo o bom humor que faz parte de sua personalidade.

Cada cartunista emprestou seu estilo e visão para retratar o sorriso e irreverência de Silvio Santos. O resultado pode ser conferido na exposição que acontece na Estação República do Metrô a partir do dia 10 de dezembro até o dia 31 de dezembro. Em janeiro, as caricaturas seguem para a Estação Clínicas e, no mês seguinte, estará na Estação Corinthians/Itaquera, time do coração do apresentador.

Desenhistas participantes por ordem alfabética:

Alecrim, Alex Souza, Amorim, Anderson de Carvalho Kocís, André de Pádua Oliveira, André HQ, André Sposito, Aroeira, Baptistão, Benjamim Cafalli, Bruno Hamzagic, Bruno Honda, Cárcamo, Carriero, Carvall, De Pieri, Décio Ramirez, Dilmar Júnior, Dimaz Restivo, Eder Santos, Edra, Edson Guedes, Eduardo Schloesser, Elihu, Evandro Carlos Olante, Fer, Fernandes, Ferreth, Francisco Rocha, Fred Osanan, Gustavo Guimarães, Iéio, Izânio Façanha, J.Bosco, Jal, Jean pires, Jorge Inácio, Josemar, Josú Barroso, Kaltoé, Lézio Júnior, Mauricio de Sousa, Mônica Fuchshuber, Nei Lima, Osvaldo Pavanelli, Paulo Sergio Jindelt, Quinho, Rafael Grande, Renato Stegun, Ricardo Alonso, Ricardo Soares, Sergio Gomes, Silvio Brum, Tako X, Toni D’Agostinho, Verônica Saiki, William Medeiros, William MR, Xavier Lima, Zappa.

Curadoria – José Alberto Lovetro (JAL)
Apoio Cultural: Sistema Brasileiro de Televisão - SBT
Realização: Associação dos Cartunistas do Brasil – jal.comunicacao@gmail.com

Serviço:

EXPOSIÇÃO – "84 Vezes Silvio Santos”
De 10 a 31 de dezembro no Metrô República ( Espaço do nível “C”)
De 10 a 31 de janeiro de 2015 no Metrô Clínicas
De 10 a 28 de fevereiro de 2015 no Metrô Corinthians/Itaquera
Horário de funcionamento do Metrô de São Paulo

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Números dos usuários que circulam diariamente pelas estações envolvidas na exposição:
Estação Corinthians/Itaquera: 193 mil
Estação República: 344 mil
Estação Clínicas: 69 mil





segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"REMINISCÊNCIAS" - Um conto de Zé Gatão escrito por Luca Fiuza com rabiscos de Eduardo Schloesser.




Normalmente, não gosto de lembrar do meu passado, sobretudo da minha infância. Ainda assim, tive em algumas fases da vida momentos agradáveis, por que não dizer até engraçados.
Há muitos anos atrás, vivia com minha mãe em uma cidade de pequeno porte para a qual havíamos nos mudado há um ano. Experimentávamos um dos raros períodos em que nossa situação se achava em um nível razoável. Minha mãe trabalhava em uma loja de doces finos perto de casa. Nesta época, eu fazia um curso de Jornalismo e Publicidade em outra cidade, mas no meio do ano acabei abandonando-o por achá-lo pra lá de tedioso. Minha mãe não gostou muito, mas deixou que eu agisse como achasse melhor. Eu era um felino alto e desempenado. Gostava de praticar longas corridas e cedo comecei a me interessar por fisiculturismo. A princípio, malhava em casa mesmo, com pesos artesanais fabricados por mim. No lugar de barras, me exercitava em galhos de árvores que conseguissem suportar meu peso. O tempo ocioso era grande e eu gostava de passá-lo em um bosque próximo, me deixando ficar à beira do regato, profundamente mergulhado em minhas cismas e tristezas íntimas.
Depois de quase um mês, sem fazer nada e cansado daquela vida inútil, resolvi procurar trabalho. Por ser uma cidade pequena não havia boas oportunidades. Ainda assim, através de um amigo, um galinho carijó quase sempre enfezado, consegui um trabalho de fotógrafo auxiliar no estúdio do pai dele, um galo velho de maus bofes que curiosamente simpatizava comigo. Tinha o dom de aprender rápido e logo estava dominando meu ofício. O velho ficou satisfeito com meu desempenho. Dali a uma semana me deu um adiantamento reforçado. Metade eu entreguei nas mãos de minha mãe e fiquei com o resto para meu uso pessoal. Além de comprar algumas roupas e calçados novos, resolvi me inscrever em uma academia de musculação junto à praça central da cidade.  A academia era acanhada, os aparelhos meio velhos, mas era o que eu tinha à mão. Com o tempo, adquiri um físico avantajado, massudo, sem divisões. Não me importei, pois isto eu conseguiria posteriormente, com uma alimentação mais adequada e aparelhos mais modernos. Com certeza, não naquele lugar e naquela cidade.
O proprietário da academia era um gatão vira lata de expressão velhaca. Tinha braços grandes, mas mal trabalhados, pernas finas, peito amplo e relativamente desenvolvido. Uma barriga roliça de bebedor de cerveja completava o quadro. Era uma figura grotesca e pouco estimulante para quem quisesse nele se espelhar para ter um corpo sarado. O local era escuro, mal ventilado e tinha um odor ruim de suor de diversos tipos de animais, principalmente cavalo. Como era a única academia da cidade, o safado felino cobrava as mensalidades a um preço extorsivo. Por não ter outra opção, seus frequentadores pagavam a contragosto, eu, inclusive. Todo dia eu ia malhar de manhã bem cedo, depois passava em casa, tomava um banho, forrava a pança, vestia roupas leves e ia trabalhar no estúdio até por volta de seis horas da tarde.

Apesar da rotina, eu gostava daquele trabalho. Não era nada emocionante, mas tanto eu quanto meu amigo, o galinho curtíamos estar ali. O galinho se chamava Renato. Estávamos sempre juntos. O único lugar que Renato não me acompanhava era para a academia, pois alegava ser tão fodão que não precisava daquela merda! Eu achava graça. Queria ver se ele tivesse que sair na porrada de verdade como faria! Em minha opinião ele era só um garganta!
O galo velho disse que ia precisar fazer uma viagem de uma semana a outra cidade e que deixaria o estabelecimento aos nossos cuidados, Achei ótimo!
Em uma tarde em particular, tive três experiências inusitadas. Primeiro com um filhote de peru e sua mãe. Depois com uma gata de tirar qualquer um do sério! E por último com o gatão dono da academia.
A perua e seu filhote chegaram lá pelo meio da manhã. Ela era um ser extravagante. Usava roupas de cores berrantes, chapelão de um roxo destoante com o resto da indumentária. Um colar de enorme de pérolas evidentemente falsas pendia de seu pescoço. Usava no bico um batom vermelho bem forte, cílios postiços e nas pálpebras uma sombra verde claro que deixava seu olhar esquisito.  O vestido amarelo ouro justo, evidenciava o formato circular de seu corpo atarracado. Os sapatões vermelhos brilhantes compunham a bizarra combinação que decerto era o top de linha dos endinheirados (ou não!). Sua voz era um grasnar alto e desafinado, bem típico de aves daquela espécie. O filhote era um molecote macilento, mimado. chorão e atrevido.
Polidamente, perguntei no que eu poderia ser útil. Na cabeça dela parece que eu a destratei. A perua me respondeu de modo ríspido e impositivo. Estrilou, dizendo que eu estava ali para atender! E rápido sem muito teretêtê!  Disse que queria uma foto bem caprichada de seu adorado pimpolho. Renato se abespinhou com aquele tratamento, mas fiz um sinal a ele para que se acalmasse e que deixasse tudo comigo.
Mais polidamente ainda pedi que a mãe sentasse o moleque em uma cadeira que se achava diante da
câmera. Atrás havia um painel branco. Liguei as luzes e me postei atrás da máquina fotográfica, louco para terminar aquele atendimento. Quando eu estava focalizando o moleque, este começou a se mexer e a gritar que estava demorando muito, que ele estava com fome, com calor, que queria fazer xixi e o escambal! Tive
que me dominar para não dar uns tapas naquela criaturinha inconveniente! Pedi que a perua mãe o levasse para mijar em um banheirinho no fundo da sala. Enquanto os dois iam ao toalete, pedi que Renato permanecesse calado. O galinho tremia de raiva, a face avermelhada denotava seu atual estado de espírito. Ao saírem do banheiro, mãe e filho trouxeram consigo uma fedentina insuportável! O filhinho da puta também tinha cagado. Fiz um rápido sinal para que Renato fechasse  logo a porta do banheiro! E aquela dona ainda se achava fina! Grande merda! Enjoado com aquele cheiro, levei mais de uma hora para fotografar a porra daquele moleque! E a peruona ainda me fez repetir várias fotos! Gastei filme pra caralho! Finalmente, ela se deu por satisfeita! Jogou no balcão um maço de notas e se retirou levando o filhote que fazia chilique, gritando que não queria ir embora. Ela voltaria na semana que vem para pegar as fotos. Pelo menos, ela pagou um valor bem acima do que seria cobrado.

Fomos olhar o banheiro. Tudo cagado! No chão, nas paredes, o sanitário entupido, borbulhando cheio de merda até as tampas! Deu um trabalhão para limpar tudo aquilo! Gastamos um litro de detergente, de álcool e outros produtos de limpeza e ainda ficou um cheirinho longe...! A sacana da mãe deve ter cagado junto com o filhinho! Só um moleque não poderia produzir sozinho aquela tal quantidade de bosta! Por fim limpamos tudo, desentupi o vaso. Ainda bem que não apareceu nenhum cliente.


Depois do almoço, chegou uma cliente digna de nota. Era a Miss Felina da cidade que ia concorrer a um torneio internacional de Beleza. Queria fazer um Book para um evento que ocorreria no mês seguinte. Aí está um trabalho que me agradou! Além de lindíssima, a gatinha era muito simpática. Finalizado o serviço, ela me deu um convite perfumado para o tal evento. Depois que ela saiu eu passei o resto da tarde como um sonâmbulo, sentindo no ar o doce aroma daquele corpo macio que ficou no ambiente. O galinho Renato disse que eu estava parecendo um idiota!

Um pouco antes da hora de fechar apareceu no estúdio, o dono da academia de musculação que eu frequentava. O sujeito chegou numa arrogância só! Queria umas fotos para fazer um novo documento de identidade. Ignorei o comportamento daquele energúmeno e procurei agir de maneira profissional. Quando terminei o serviço, falei o preço. Disse que ele poderia pagar no dia que viesse pegar as fotos. Para minha surpresa, o cretino soltou uma gargalhada estrondosa, afirmando que não ia pagar porra nenhuma! Renato adiantou-se furioso! Segurei-o pelo braço e falei que deixasse quieto. Ainda rindo, o babaca retirou-se.

Na manhã seguinte, bem cedo, fui à academia e malhei tranquilamente. O babaquara do dono nem me olhou. Fez que não era com ele. Antes de sair, fiz questão de parar no lugar onde ele estava. Falando baixo para só ele ouvir, falei que não ia pagar a porra da mensalidade daquele mês. O puto logo se aborreceu! Gritou que isso era um absurdo e que se a moda pegasse ele iria à falência. Mandei ele se fuder e fui saindo. Louco de fúria, ele avançou em mim e mandou um soco violento! Pobrezinho! Era lento como um caracol no cio! Eu, além de musculação, treinava Boxe com um gato preto. Era meu vizinho e era lutador profissional. Tinha outro gato com quem eu andava que era da região oriental e me ensinara uma luta de nome impronunciável. Trocando em miúdos, enchi o gato vira lata de muita porrada e os amiguinhos dele, outros gatos sarnentos, musculosos e imbecis que vieram tomar satisfação. Todos eles tomaram uma coça maior ainda! Resumo da ópera: passei a frequentar a academia totalmente de graça e aquele bastardo ainda pagou pelas fotos e pagou em dobro! Minha mãe se admirou quando na semana seguinte cheguei lá em casa com bastante dinheiro. O galo velho ao saber da história me deu uma gratificação tripla! Em minha vida nem tudo são flores, raramente são! Mas tenho algumas poucas coisas boas para recordar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

MAIS UM INFANTIL.

Minhas mãos doem hoje. Sim, as duas. A esquerda doi por conta de uma lesão sofrida o ano passado, foi uma idiotice que cometi e hoje não aguento mais segurar nada com firmeza sem sentir uma fisgada intolerável próximo ao polegar. Já fui no médico, já tomei antiinflamatórios, já fiz compressas com água gelada e quente e nada deu resultado, uma hora a dor passa, ou não. Fazer o quê? A direita dói porque ontem consegui fazer uma página inteira da biografia do Poe, normalmente levo dois dias para uma página, um dia para diagramar, fazer esboços, acertar os desenhos e detalhes e um outro para finalizar a página, que são os efeitos claro-escuro, mas ontem me empolguei e terminei a folha antes do anoitecer, resultado: mão cansada e as pontas do indicador e polegar sensíveis. Ossos do ofício.

Normalmente é pela manhã que tenho um melhor rendimento, gosto de aproveita-la para dar todo o meu gás pois nunca sei o que o dia vai me trazer, embora eu viva de rotina, mas gosto de garantir que um desenho, qualquer que seja ele, fique pronto, embora eu não saiba exatamente porque. Quando é um trabalho que vão me pagar por ele, aí justifica, mas quando dou vazão à minha criatividade e ponho no papel, a pergunta que fica é: porque o faço? Quem liga? Recebo um ou dois elogios de umas pessoas gentis e depois eles ficam esquecidos em envelopes. Penso que é porque eu não saiba fazer outra coisa e não goste de parecer um parasita, acima de tudo gosto do que faço, se um dia não pudesse desenhar mais, por algum motivo, creio que minha morte chegaria mais depressa. Me ocorre agora um pensamento nerd, li certa vez uma hq do Wolverine e do Destrutor; o poder mutante do Destrutor é gerar energia, tipo, dá pra acender um cigarro na palma da mão, mas um poder assim serve para que exatamente? Nem ele sabia. O mesmo se dá com o artista que não trabalha por encomenda. A ele só resta criar alguma coisa na esperança de que aquilo vai chamar a atenção de alguém e esse alguém se disponha a pagar por ela. Fora isto fica parecendo só uma vaidade besta.

Bem, estou divagando inutilmente, pra variar, o que eu queria dizer é que hoje não pude aproveitar a manhã pois tive que ir ao mecado com a Vera, saimos com um agradável tempo nublado, no estabelecimento caiu uma chuva caudalosa e nosso retorno foi sob o olhar cruel de um sol que parecia despejar óleo quente sobre nossas peles. Hoje em dia o tempo perdeu a razão, ficou louco e precisa ser internado num hospício. Noto também que antes, em cada esquina você encontrava um orelhão, por aqui eles sumiram. Em todo estabelecimento você via um relógio, podia ver as horas grátis, hoje os relógios e os orelhões sumiram (culpa dos celeulares?), estão se tornando peças de museu, e os museus estão fechando, tão mandando tudo para os computadores e internet. É a Skinet, a Matrix e sei lá mais o quê.

Bem, melhor parar de falar merda. Acabando aqui vou mergulhar as mãos em água gelada e partir pra mais uma página. Não vejo a hora de concluir este projeto do Poe.

Fiquem com mais um desenho para um livro infantil e tenham todos um excelente fim de semana.