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quinta-feira, 5 de março de 2015

NEVERMORE.


Dias de luto para a família da Verônica.
Rotina totalmente alterada.
Não basta a dor da perda, ainda tem a luta para o sepultamento.
Não há clima para palavras.
A ilustração para uma das obras do Machado de Assis tem algo a ver.

 

segunda-feira, 2 de março de 2015

MUNDOS OPOSTOS. Um conto do universo Zé Gatão por Luca Fiuza.



      Em uma das tantas cidadezinhas de veraneio litorâneas que enchiam a chamada Costa Dourada, Zé Gatão estava trabalhando há algumas semanas como Guarda Vida em uma pequena praia privativa, propriedade de um poodle ricaço que gostava de passar a temporada de sol em sua enorme e dispendiosa mansão de número excessivo e ignorado de quartos. A citada praia era a melhor da região com sua areia fina, de um branco perolado. Ali o mar era calmo de poucas ondas, águas mornas, muito azuis. Apaixonado pelo local, o endinheirado canino logo o comprou, tornando-o um parque de diversões para ele, seus amigos e suas garotas. Eventuais intrusos eram pouco delicadamente expulsos por seu sempre vigilante corpo de seguranças, uns cachorrões feios de origem indefinida, mas impecavelmente vestidos com uniformes pretos com o logotipo da empresa do poodle no quepe e no lado esquerdo do grosso casaco, onde em um coldre interno guardavam pistolas de último tipo, discretamente mostradas a quem tentasse entrar, ousando reclamar por não poder frequentar aquela praia. Na maioria das vezes, a cara feia destes seguranças e uns ocasionais sopapos bastavam para esclarecer as coisas aos insistentes e evitar maiores problemas.


        Hora do almoço. Costumeiramente, o felino cinzento almoçava com o poodle e sua turma à beira da praia, mas naquele dia em particular não estava com paciência de ouvir idiotices vazias, suportar o flerte superficial das cachorrinhas perfumadas e principalmente o exibicionismo do poodle rico, só falando de suas posses, de quanto tinha ganhado no Mercado Financeiro e aguentar aquele bando de bajuladores fazendo elogios rasgados à capacidade do sujeito de ganhar dinheiro. O riquíssimo canídeo não gostou de saber que ia perder a companhia do felino, quando este comunicou sua decisão de almoçar na cidade. Apesar de toda a sua empáfia, o poodle gostava de Zé Gatão e admirava secretamente sua independência e nível cultural. O gato era o único dentre todos os outros que não se deixara enfeitiçar pelo fascínio e pela riqueza ostentados pelo empresário. Falava pouco, mas suas colocações eram sempre bem embasadas. O poodle percebia que seu mundo não agradava ao grande gato, mas este nunca fizera nenhuma observação, mesmo se perguntado de maneira direta. Era eficiente em seu trabalho, educado com os convidados e demais empregados. Extremamente discreto. Ótimo profissional. Portanto, a presença do felídeo acinzentado servia de certa forma como um efeito moderador para que o poodle começasse conter um pouco suas bazófias e procurasse melhorar o nível da conversa. Nunca conseguia. Infelizmente, a medida de sua riqueza não era a mesma em se tratando de cultura geral.  No entanto, o cão queria beber dessa fonte, e consequentemente, procurava manter Zé Gatão constantemente próximo. Não naquele dia.


O poodle pagava razoavelmente bem. Contudo, Zé Gatão resolveu almoçar em um restaurante mais simples, localizado na periferia da cidade. Estava economizando para comprar uma moto e sair dali o mais rápido possível. Já passara tempo demais salvando cadelinhas afetadas que fingiam se afogar, em meio a gritinhos esganiçados, denotando uma falsa encenação de namorico para supostamente dar certa cor à suas existências de criaturinhas entediadas. Trocou a sunga verde apertada e a camiseta vermelha cavada por uma camisa sem mangas branca, calça jeans de um azul desbotado sem cinto, meias brancas, tênis vermelho e branco de uma marca um pouco cara que ganhara do patrão. Tomou um ônibus na orla e desceu não muito longe do lugar de destino, região mais pobre da cidade.
Entrou. Sentou-se junto à grande janela envidraçada do restaurante. Pediu o prato do dia e uma caneca grande de cerveja estupidamente gelada. O local era simples, mas agradável.
Comeu bem. Muito melhor que a comida cheia de elaborações, decorações e outras delicadezas que aqueles ricaços bobalhões degustavam cheios de não-me-toques. Enquanto comia a sobremesa, um delicioso e simples manjar branco, notou uma cena inusitada na pracinha do outro lado da rua. Em um banco estava sentado um casal. Um boi e uma vaca grandes e gordos. Pareciam estar discutindo. Os mugidos recrudesciam. Dava para ouvir do restaurante. Os eventuais passantes mudavam de direção. Mães e babás aterrorizadas se afastavam levando filhotes que choravam por serem tão abruptamente impedidos de continuar seus folguedos. No restaurante, a clientela se agitava. Zé Gatão olhava intrigado de sua mesa, enquanto terminava sua cerveja.
O enorme boi se levantou e começou a mugir mais alto enquanto espancava a vaca que a cada tabefe oscilava o corpanzil, soltando um vagido de cortar o coração. As pessoas se perguntavam se ninguém ia fazer nada. Um burburinho só, gritos penalizados, mas ninguém movia uma palha para socorrer a infeliz vaca que caíra do banco sob a chuva de tabefes e era pisada no chão pelo boi ensandecido. O dono do restaurante, um urubu velho com uma guimba de cigarro apagada no canto do bico se aproximou e perguntou ao musculoso gato se ele não iria fazer nada.
- E vocês? Há muitos de vocês por aqui. – Falou calmamente o felino olhando para os clientes do local que se acotovelavam para tentar assistir a cena deprimente.
- Você é grande e musculoso e poderá enfrentar aquela bola de gordura! – Grasnou o urubu velho. Murmúrios de aprovação foram ouvidos entre os presentes.
Zé Gatão deu os ombros e ergueu-se lentamente. Sob os olhares assustados de todos saiu à rua. O boi continuava estapeando a vaca que parecia estar semiconsciente. Aproximou-se calmamente do agressor que de tão entretido com a violência que praticava nem percebeu a presença do felino. Prosseguindo sua caminhada, Zé Gatão foi até um orelhão, e discou o número da polícia. Rapidamente os policiais chegaram e se precipitaram sobre o boi agressor. Bateram tanto nele que tiveram que carregar seu corpo desacordado para o camburão, onde o jogaram brutalmente sem muita cerimônia. A cara do infeliz parecia um bife batido, toda arrebentada, dentadura arruinada. A vaca também foi levada para prestar depoimento na delegacia. Zé Gatão voltou ao restaurante, onde foi ovacionado por sua atitude. Irritado, refutou aquelas manifestações de reconhecimento.
- Calem a boca, idiotas! Qualquer um de vocês poderia ter feito o que eu fiz. Vão à merda todos vocês com seus elogios e agradecimentos!  – Pagou a conta e saiu dali enojado com o egoísmo e a covardia reinante naquela cidade de extremos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PALAVRAS, UMA IMAGEM E NADA MAIS.


O cansaço domina meu corpo hoje como todos os dias, mas há momentos em que isso parece mais grave. Não é nenhuma novidade, sempre repito isso aqui. Durmo tarde, acordo cedo, mas esse não é o problema, acho que é a rotina, embora no fundo ela não me faça mal, desde que eu possa sentar à prancheta e fazer o meu trabalho sem interferências, mas tem sempre uma estática em vários pontos do dia afetando a produção. É como uma diminuta farpa na palma da mão, você não a sente a menos que resvale em alguma coisa, não consegue vê-la ou suprimi-la, mas incomoda desesperadoramente. Se ao menos meus esforços na arte dessem o retorno financeiro esperado....

Ainda não dei início a uma nova página de quadrinho do Poe, ela está aqui do meu lado, branca, aguardando. Na tela do computador à minha frente uma letra após outra vai formando frases recheadas de auto piedade para um público que diminui a cada dia. Antes este espaço era visitado por 500, 600 pessoas, depois foi caindo gradualmente. Durante muito tempo apareciam 200, 150 pessoas, depois 50 e atualmente gira em torno de 17. Devem ter se cansado. Não dá para culpá-los. Somos todos sedentos por novidades, principalmente num mundo tão veloz onde não há mais espaço para um café ou refrigerante com um amigo, aquele momento para falar amenidades, relembrar fatos marcantes; um mundo cada dia menor, mais mesquinho e frio onde decapitar pessoas e estuprar crianças se tornou banal. Acho mesmo que o momento de encerrar este blog está chegando, nada dura para sempre.

A tarde promete ser pesada com bastante esforço físico. Móveis para desarmar, carregar e tornar a armar.

O calor está muito forte. Faltou luz uma noite dessas. Um violento pipoco num poste próximo e o quarteirão ficou às escuras por mais de duas horas. Não corria brisa apesar das janelas abertas. Na semana anterior também não teve energia elétrica, mas nem sei o motivo. Sempre depois do sol se pôr.

Hoje pela manhã tive que dar uma saída rápida, os raios do astro rei agrediam a pele. Uma mulher da prefeitura recolhia o lixo das ruas, tinha um metro e vinte, se tanto, com galochas, luvas, boné e pesadas roupas de cor laranja escrito VARRIÇÃO em letras garrafais nas costas, a cena fez meus problemas parecerem pequenos. Quisera eu poder realizar algum sonho daquela moça.


Pudesse eu encontrar um amigo para conversar, como mostra este desenho, que nem ficou tão bom, para falar um pouco sobre quando éramos mais jovens e tínhamos toda uma vida pela frente...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A QUINTA CENA DE ESAÚ E JACÓ.


Hoje pela manhã conversava com meu old pal, Luca, por e-mail. Ele é professor de história como já foi mencionado aqui e gosta de escrever, é dele os contos de Zé Gatão que vez por outra dão as caras neste blog, o que permite que o felino cinzento não fique aposentado de vez, já que não tenho possibilidades de dar continuidade às suas aventuras nos quadrinhos. Ele, não faz tanto tempo, conseguiu lançar um livro de contos no EUA. É a velha história de sempre: mandar um original para um editor é uma luta sem precedentes, e ele venceu este round; o livro ganhou as prateleiras das livrarias mas não avançou muito, isto porque para fazer um merchandizing do produto o autor teria que desembolsar uma boa grana para tanto. Não falo como especialista, pois não o sou, mas muitos autores, inclusive de quadrinhos, com muita garra conseguem vencer a primeira barreira que é ter um produto físico nas mãos, mas na distribuíção e divulgação a coisa emperra. É assim em todo lugar, na terra do Tio Sam também.
O material independente, por melhor que seja, dificilmente sai do esquema marginal, fica restrito a uns poucos, mesmo que esses poucos sejam muitos num país com mercado de entretenimento forte, já os muitos são muitos pra valer e ficam famosos por todo o globo terrestre (aqui o pouco é pouco mesmo). Este meu último paragráfo ficou meio confuso mas acho que me fiz entender, né?
Eu tomo como exemplo o cineasta George A. Romero - o pai do Zumbi moderno - nunca quis sair do esquemão cinema independente, queria ter total controle sobre seu produto. Esbarrou na distribuíção, ficou restrito ao gueto dos malditos, virou cult, mas nunca saiu disso. Quando recebeu uma grana maior de estúdios para rodar mais um zumbi, mostrou competência, mas sem a força que sempre o caracterizou.

A Fantagraphics Books sempre publicou o tipo de quadrinho que gosto de ler: Peter Bagge, Daniel Clowes, Charles Burns, os irmãos Hernandez e por aí vai. Só artista independente com algo legal para mostrar. Não ouvimos falar dela como as grandes que publicam Super Heróis e Star Wars, mas acho que não fui feliz em exemplificá-la, penso que ela tenha sucesso no seu nicho exatamente por essas carcterísticas. Pelo menos tem funcionado bem assim até hoje.

A produção independente aqui vai de vento em popa, mas sem a devida divulgação e principalmente sem distribuíção eficaz, por mais que a internet ajude, não creio que a coisa vá avançar como se espera. Já falei sobre isso várias vezes, é o meu pensamento, posso estar enganado.

Noto também, principalmente hoje em dia que de "escritor", "artista" e "poeta" todo mundo parece ter um pouco e quer que os outros conheçam suas "obras", o que na minha opinião incha, satura e confunde o mercado. O mundo das artes está cheio de enganadores - ou melhor, pessoas que se auto-enganam. Uma obra mal feita pode ser confundida com vanguardista, "expressão da alma sem as amarras da vida acadêmica" ou coisa semelhante. Daí a produção do artista se vê, digamos, desvalorizada, uma a mais no meio de tanta "tralha".

Mas o meio artístico propícia isto, você se auto-expressar da maneira como quiser. Tem muito cara de pau por aí, cantores que não cantam, atores canastrões aos montes, apresentadores de tv sem o menor carisma e tutti quanti fazendo sucesso, ganhando rios de dinheiro. O artista disciplinado, que estuda com afinco e produz o seu melhor fica restrito ao gueto. Produz para meia dúzia, se tanto. Mas talvez tenha que ser assim.

Escrevo na correria e os pensamentos vão se sobrepondo, relendo o texto pareço ter misturado alhos com bugalhos, mas é só mais um desabafo. Fecho com mais uma arte da obra do Machado.

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

LOLITA.


Leonardo Santana é um dos grandes roteiristas de quadrinhos do Brasil.
Produziu muito, sempre de forma independente.
Criou o repórter FDP (não, as iniciais não significam o que vocês estão pensando, mas creio que a verdadeira intenção dele é que vocês pensem o que pensaram, afinal, o comportamento do moço, como o de todo repórter que se preze, não é lá, digamos, muito ético). O subtítulo da primeira aparição do personagem nas hqs é: "Se Não Morrer Ninguém, Não É Notícia". Fernando Drummond Pessoa é o nome da figura e tem histórias ótimas. Mas no Brasil essas coisas são difíceis de decolar e eu parei de me perguntar por quê.
Leonardo Santana diz que está cansado. Não exatamente da arte sequencial ou de criá-las, mas de tudo que a envolve e não acontece. Sei como ele se sente. Mas não é por isto que ele vai parar. O veneno dos quadrinhos corre por suas veias e não há antídoto.
Leonardo Santana já criou muitos personagens. As Novas Amazonas, uma baita aventurona com tons si-fi, saiu de sua mente fecunda e já tive o prazer de ler uma sequência. Por longo tempo fiquei sedento por mais. Acho que existem novidades para serem lidas on line, o problema é que não consigo me acostumar a ler quadrinhos na tela do computador, então a sede continua. Lolita é uma dessas Novas Amazonas e é retratada no meu pobre traço na arte de hoje.
Leonardo Santana também foi editor do Zé Gatão - Graphic PADA 1. Fez um ótimo trabalho. Aquilo virou uma edição raríssima.
Acham que repeti muito o nome Leonardo Santana neste texto? Não foi o bastante, por certo.

Um bom fim de semana a todos.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

FANART DE ZÉ GATÃO POR MILSON MARINS.



No preciso momento em que inicio essas breves palavras a um público cada dia menor, meus ouvidos são invadidos por um blues tocado pelo inigualável Mark Knopfler intitulado Don´t Forget Your Hat, som da mais alta qualidade para um dia agitado. E põe agitado nisso! São exatamente 17:45 e minha jornada de trabalho na prancheta começa agora. Mais uma página da bio do Poe ganhando formas.

Milson Marins é um cara muito legal, tranquilo, de fala mansa, cristão, desenhista, amante de quadrinhos, um dos fundadores da PADA.
Conversamos um pouco durante e Expo Comics e ele disse que iria fazer um desenho do Zé Gatão. Agradeci e falei que ficaria na espera. Ele e o Arnaldo Luis querem trazer a PADA de volta, uma vez que ela parece ter ruído devido a uns acontecimentos alheios à vontade dos membros. Era plano deles também juntar todas as hqs curtas de Zé Gatão, incluindo as coloridas, num álbum e colocar num destes sites de financiamento coletivo (comentei isto por aqui, lembram?), porém como o Zona Zen do Nestablo Ramos infelizmente não conseguiu atingir a meta e ser publicado, eles resolveram esperar até que o momento fosse mais propício para o felino fazer sua tentativa. Por mim, ok.

O desenho prometido chegou pelo Facebook dia 6 de fevereiro. Ficou com a expressão suave, né? Ele diz que retratou o Gato mais jovem. É muito legal essas diferentes formas que os artistas tem de ver um personagem. Eu gostei, e você?
MUITO OBRIGADO MILSON!

Amanhã começa o insuportável Carnaval. Dou uma pausa e se Deus quiser volto no final da próxima semana. Fiquem bem.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

MAIS UMA VEZ, DE NOVO E NOVAMENTE, UMA OLHADA NO ATUAL MERCADO DE QUADRINHOS CRIADOS NO BRASIL.

Eu diria que os quadrinhos brasileiros (não vou usar o termo NACIONAL) vão muito bem. Muito bem mesmo. Tem produção para todos os gostos, como comprova este vídeo do Zine Brasil, da Michelle Ramos, e vai de vento em popa.


Nos sites de financiamento coletivo vemos muitos quadrinhos esperando por uma chance, assim como aqueles que aguardam uma verba do governo para sair da gaveta.
Isto, é claro, sem falar daqueles que produzem diretamente para serem lidas na web. 
Nunca vi tanto material sendo executado nos quatro cantos do Brasil. 
Como vocês podem ver, os quadrinhos, e falo de quadrinhos de um modo geral, não só os brasileiros, 
estão longe de morrer, ao contrário do que foi vaticinado no início dos anos 2000 por alguns profetas de ocasião. 
Os eventos ligados direta ou indiretamente a esta arte também voltaram com tudo e tem gerado interesse da mídia, que já dão algum espaço para divulgação (ainda que com muita desinformação). 

Agora, aonde ficam as editoras? Vejo um número crescente de novas casas abrigando os mais diversos tipo de material, mas ainda com um número de títulos bem limitado. Ao contrário de outras como a Devir, Cia. das Letras, Zarabatana, HQM, entre tantas que num passado recente colocavam na praça vários títulos por mês. Posso arriscar dizer que as coisas não vão bem em termo de vendas para essas publicadoras? Sabemos que a economia do país tá uma merda, e parece que vai piorar. Então, é óbvio que os quadrinhos só fluem mesmo no meio independente, algo já comentado por mim aqui, uma tribo produzindo para outra tribo, assim, eu produzo para que meu amigo leia e eu leio o que ele produz e se no meio do caminho aparecer um terceiro leitor é lucro. 
Talvez é assim que tenha que ser. Os melhores quadrinhos que li não foram aqueles criados para atender ao público mainstream, mas aqueles que queriam provocar, mudar um pouco que seja o que estava estagnado, algo como fizeram os criadores da Metal Hurlant. 
Mas acho que para um autor tudo tem um limite, não dá para malhar em ferro frio a vida toda. E no Brasil parece que o quadro não muda. Conheço pessoas que sonham em tornar seu projeto conhecido só para ter uma chance a mais de publicar lá fora, onde ainda há retorno financeiro, eu inclusive já pensei assim. 
Ontem eu fazia quadrinhos por prazer, ou para desabafar, como sempre reitero, hoje com uma série de responsabilidades não é mais possível. Por isto que minha produção diminuiu consideravelmente nos últimos tempos. Só não para de vez porque esta é a única forma de dar vida ao que vai pelo meu espírito. Tem mais um Zé Gatão para sair. Quando será? Vai sair mesmo? Não sei responder. Meu Phobos e Deimos, um livro que gosto muito, permaneçe aguardando que um dia o cenário seja diferente.
Hoje pela manhã, vi um texto do roteirista Leonardo Santana na sua página do Facebook que achei pertinente. Pedi permissão a ele para transcrever aqui. Diz assim: 

"Estou numa fase em minha vida que meu objetivo é escrever e publicar hqs. Não necessariamente publicar/imprimir/vender revistas. Não é que não tenha interesse em que minhas hqs/revistas sejam compradas. Eu simplesmente não quero ter mais todo o trabalho de gerenciar vendas e guardar estoques.
O que eu quero hoje em dia é publicar minhas hqs em veículos de outras pessoas, de outras editoras. Ou, até mesmo, na internet, de graça.
Eu envelheci. Talvez nem tanto ainda na idade. Mas, com certeza, já não tenho mais a mesma forma física e mental para as batalhas administrativas dos quadrinhos nacionais. Podem contar comigo para a parte artística mas quando penso em imprimir, distribuir e vender, vem logo aquele cansaço físico e mental comum de quem já teve decepções o suficiente nestas areas.
Além do mais, essas atividades sempre me tiram de meu foco principal que é o de produzir meus roteiros, meus trabalhos, meus quadrinhos.
Quem sabe amanhã eu mude de ideia mas hoje é como eu me sinto." 

Meu chapa Gilberto Queiroz me disse que foi ao Angelo Agostini, uma das mais antigas premiações de quadrinhos brasileiros que há, e que foi legal e havia muito otimismo reinando por lá. Bom saber que os artistas estão com pique, tem que continuar mesmo, nada de desistir, afinal, nessa vida tudo é possível.

Não pretendo parar de criar meus quadrinhos, mas agora faço sob outro prisma, apenas para minha autossatisfação, algo como aquelas esculturas feitas na areia ou no gelo. Trabalhos de terceiros ou parcerias só se me pagarem por isto.

A boa notícia então é esta, a produção de hqs brasileiras vai bem de saúde, a má é que tudo indica que o mercado não sai da enfermaria.